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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Flordelis é destaque na Revista Marie Clarie

Ela deu a própria vida em troca da de um garoto que seria morto pelo tráfico no Rio, adotou 51 crianças e, hoje, cuida de quase trezentas em um projeto social numa das favelas mais violentas de Niterói

Flordelis é destaque na Revista Marie Clarie
Flordelis é destaque na Revista Marie Clarie

Vanderlei Almeida / AFP
Talentos lapidados
O menino Daniel toca piano para Flordelis e alguns de seus irmãos


A história de Flordelis dos Santos, 51 anos, pode ser contada em dezenas e centenas. Ela tem 55 filhos — 43 meninas e doze meninos, todos acomodados em dez quartos, com sete banheiros em uma bonita casa em Pendotiba, Niterói. O sustento da familia exige 50 kg de arroz, 14 kg de feijão, 72 litros de leite, 52 kg de carne, 600 rolos de papel higiê­nico por mês. Os números sugerem uma atribulada rotina materna. Mas Flordelis não restringiu sua vida ao lar. Pastora evangélica e cantora gospel há dois anos, prega às quartas e aos domingos para centenas de fiéis. A Igreja é uma extensão de sua casa, onde presta assistência social a 228 jovens carentes no violento Morro da Chumbada, no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio. Às segundas, ela percorre as favelas fluminenses — pacificadas ou não — e faz shows gratuitos de música gospel, frequentemente sob a mira de fuzis.

Flordelis não é educadora ou assistente social. Não é antropóloga ou socióloga. Nasceu e cresceu na favela do Jacarézinho, Zona Norte do Rio de Janeiro, e teve uma infância tão pobre e violenta quanto a dos filhos que a vida lhe deu. Aos 14 anos, perdeu o pai e o irmão em um acidente de carro. Para sobreviver, trabalhou como balconista de padaria. Também foi professora primária. Religiosa desde a infância, briga com traficantes e juízes há mais de duas décadas para conseguir a guarda definitiva das 51 crianças e adolescentes que se juntaram aos seus quatro filhos biológicos. Sua trajetória é também de abandono­. A líder comunitária foi deixada pelo marido quando os filhos ainda eram pequenos. Conhece pessoalmente a dor da solidão e do desespero. Foi essa dor que mudou sua vida.

Um dia, uma mãe desesperada bateu à porta de Flor, como é conhecida, pedindo uma oração para o filho que seria executado por traficantes. Flordelis foi até os bandidos e disse que cuidaria do garoto, dando como garantia a própria vida. Funcionou. Depois disso, ela nunca mais deixou de cuidar de crianças vítimas diretas ou indiretas do tráfico. Fez da generosidade sua profissão. “Gostaria de poder abraçar o mundo todo, mas não tenho como”, afirma. “Já havia decidido não adotar mais ninguém quando cheguei aos cinquenta filhos. Só que, no ano passado, me vi diante de cinco irmãos órfãos, entre 2 e 12 anos, que seriam separados pela Justiça. Quem vai adotar cinco crianças? ­Separá-los seria uma violência. Decidi adotá-los também.”

A rotina na casa de Flordelis não guarda qualquer semelhança com os abrigos para menores. Ela, aliás, critica com veemência a cultura dita “reformatória”. “Abrigo para menor não recupera ninguém. Desafio qualquer um a me provar o contrário. O abrigo não faz as crianças criarem raízes, não as leva a nada a não ser à lei da sobrevivência a qualquer custo”, diz. “No fundo­ o que esses jovens agredidos precisam é de carinho, afeto”, afirma, citando o exemplo de Sandro, um menor abandonado que passou a vida em abrigos e foi morto pela polícia depois de sequestrar o ônibus 174 no Rio.

Em casa, Flordelis exige disciplina com horários. Às 5h, os filhos que já trabalham acordam. Às 6h, levanta a turma que vai estudar e, às 7h, os que ajudarão nas tarefas do lar. Todos só saem depois de tomar o café e trocar carinhos com a mãe. Flordelis gosta de ter os filhos a seu redor, fazendo cafuné, pulando, brincando, beijando. Passeios em família no shopping, com direito a pizza e cinema, são frequentes. Flor já viajou com os filhos para São Paulo e Espírito Santo, quando o dinheiro da família permitiu. Agora, planeja levá-los para o Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

Garantir uma infância de brincadeira e tranquilidade para as crianças que adota é um dos grandes feitos de Flordelis. Entre seus filhos, há aqueles que foram literalmente jogados em latas de lixo, outros são portadores de doenças graves, como AIDS e sífilis. Uma de suas filhas foi abusada pelo pai biológico desde os 7 anos de idade. Depois que a violentava, ele ainda a obrigava a se ajoelhar no chão e pedir perdão a Deus por tê-lo feito “cair em tentação”. “É de partir o coração. E há muitas histórias semelhantes a esta”, conta Anderson do Carmo, atual marido de Flordelis que também se engajou no trabalho. “Ninguém procura a polícia, não há flagrante, testemunhas, nada. A criança não tem a quem recorrer. No caso dessa menina, especificamente, a mãe defendeu o marido em vez de cuidar da própria filha. E também se culpou por vestir a menina com roupas curtas. O pai estuprador acabou virando vítima.”

Casos como esse fizeram o casal alugar o terreno de 9.200 metros quadrados no Morro da Chumbada, em São Gonçalo, onde há dois anos havia um depósito de lixo, para tentar transformar a vida do maior número de crianças possível, ainda que sem adotá-las. No espaço, há aulas de música e reforço escolar. O casal acabou de construir uma pequena piscina e uma sala onde pretendem dar aulas de luta. Ainda falta o dinheiro para construir uma quadra poliesportiva. O orçamento é apertado. As despesas somam R$ 14.000 mensais. Metade delas é paga pelos empresários Pedro e Carlos Werneck, donos do Hotel Marina, no Leblon. A outra metade, vem dos shows e palestras feitas por Flordelis, no Brasil e no exterior. Nos meses em que a conta não fecha, ela recorre a amigos famosos, como o ator Reynaldo Gianecchini. Ele participou, em 2009, do filme Flordelis: Basta Uma Palavra para Mudar, sobre a vida da missionária. Flordelis garante que, mesmo no aperto, nunca passa a sacolinha entre os fiéis de sua igreja.

Flordelis quer ver os filhos
no topo da pirâmide social
Planos futuros

Além de fazer os sonhos das crianças caberem no orçamento, Flordelis ainda precisa lidar com os que têm a intenção de atrapalhar seu trabalho. “Travo uma batalha por dia. Os traficantes da Chumbada acabaram de me tomar uma criança do Instituto. Pagaram a conta de luz da casa dela e chantageiam tanto a menor quanto a família. É assim que eles fazem. E quanto menor for a criança, melhor para eles, porque fica mais fácil esconder a droga na mochila da escola”, explica Flordelis. No dia da entrevista, ela se preparava para subir o morro, procurar o chefe do tráfico, reem­bolsá-lo do valor da conta de luz e convencê-lo a libertar a criança. “Não se espante. Faço isso a vida toda. Eles já me conhecem”, avisa.

A pastora, no entanto, não se permite esmorecer e desbotar o sorriso dos lábios. Ela tem planos ainda maiores para suas crianças. Não basta tirá-las do tráfico, quer ver todos os 55 filhos no topo da pirâmide social, com diploma universitário e exercendo a cidadania plena. Seus olhos de mãe orgulhosa brilham ao relatar suas primeiras conquistas: “Tenho um que está na faculdade de Direito, outro que faz Engenharia e uma na Enfermagem. Espero, do fundo do coração, que todos possam entrar e sair da universidade pela porta da frente”. Nós também.
Vanderlei Almeida / AFP
Super-família Flordelis com alguns dos filhos em casa, em Niterói
Fonte: Marie Claire
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